ABACAXI DE RAPOSA – Ananas ananassoides

Abacaxi do cerrado
O abacaxi do cerrado pertence à ordem Bromeliales, família Bromeliaceae,
subfamília Bromelioideae. Com aproximadamente 50 gêneros e cerca de 2000
espécies, esta é a maior família de distribuição natural restrita ao Novo Mundo,
com exceção da Pitcairnia feliciana (Aug.Chev.) Harms e Mildbr, nativa da Guiné.

NOMES COMUNS: ananaí ou nanaí, ananás-de-raposa (Brasil, Pará), curibijul,
maya piñon, piñuela, ananás-do-índio – – ABACAXI DO CERRADo .

NOME CIENTÍFICO: Ananas ananassoides (Baker) L.B. Smith. Sinonímia: Ananas
comosus var. ananassoides (Baker) Coppens e Leal.

O Ananas ananassoides (Baker) L.B. Smith apresenta folhas com até 2m de
comprimento; lâminas lineares, longas, estreitas, geralmente de largura inferior a 4
cm, subdensamente serrilhadas, espinhos ascendentes. Escapo alongado, delgado,
diâmetro geralmente inferior a 15 mm; brácteas escapulares largas, subfoliáceas.
Inflorescência pequena a média com 15 cm de comprimento no máximo, geralmente
menor, globosa a cilíndrica. Fruto com pouco desenvolvimento após a antese, globular
a cilíndrico, tamanho de pequeno a médio, inferior a 15 cm de comprimento, fi xado
a um pedúnculo longo e fi no, geralmente com muitas sementes, polpa branca, fi rme
e fi brosa, com altos teores de açúcar e ácido; roseta de brácteas foliáceas apical
(coroa), relativamente bem desenvolvida na maturação.

As bromeliáceas possuem um grande poder adaptativo, visto que o hábito de
comportamento pode variar de terrestre a epífi ta, vegetam em vários tipos de
habitat, desde ambientes com sombreamento total àqueles expostos a pleno sol,
sob umidade elevada a condições extremamente áridas, desde o nível do mar até
altitudes elevadas, e em clima quente e tropical úmido a frio e subtropical seco.
Distribuem-se por ampla área geográfi ca, desde o centro dos Estados Unidos até as
regiões norte da Argentina e do Chile (SMITH, 1934). As bromeliáceas caracterizamse
pelo talo curto, uma roseta de folhas estreitas e rijas, infl orescências terminais
racemosas ou paniculadas, fl ores hermafroditas, actinomórfi cas, trímeras, com boa
diferenciação entre cálice e corola, seis estames, ovário súpero a ínfero, trilocular,
com placenta axilar e numerosos óvulos, frutos tipo cápsulas ou bagas, sementes
pequenas, nuas, aladas ou pilosas, com endosperma reduzido e um pequeno
embrião. A maioria das espécies é epífi ta, outras são rupícolas ou terrestres.
Desenvolveram estruturas e mecanismos particularmente adaptados para
absorção, armazenamento e economia de água e nutrientes, que são: (i) estrutura
da roseta foliar, (ii) habilidade de absorver água e nutrientes através das folhas
e raízes aéreas, (iii) tecido aqüífero especializado das folhas com habilidade de
armazenar água, (iv) tricomas multicelulares que refl etem a radiação, (v) espessa
cutícula, (vi) localização dos estômatos em sulcos limitando a evapotranspiração e,
(vii) metabolismo CAM (crassulacean acid metabolism), que é o metabolismo ácido
das crassuláceas, uma via metabólica para síntese de carboidratos, que algumas
espécies apresentam, principalmente plantas de folhas suculentas, como é o caso
das bromeliáceas. Essas espécies abrem os estômatos a noite, período em que
absorvem o dióxido de carbono, armazenando-o sob a forma de ácido málico, o
qual é transformado em glicose pelo efeito da luz solar durante o dia (FERREIRA
et al., 2005).
O sistema radicular não é bem desenvolvido e sua função é principalmente
voltada para a fi xação da planta. As bromeliáceas são divididas em três subfamílias:
a Pitcarnioideae, a Tillandsioideae, e a Bromelioideae. As Pitcarnioideae são
geralmente terrestres, com as margens das folhas armadas, fl ores hipógenas e
epígenas, cápsulas secas e deiscentes contendo sementes nuas ou com apêndice,
adaptadas à dispersão eólica. As Tillandsioideae incluem mais espécies epífi tas,
com a margem das folhas lisas, fl ores geralmente hipógenas, e cápsulas deiscentes
e secas contendo muitas sementes plumosas, adaptadas à dispersão eólica. As
Bromelioideae, foco de maior atenção neste trabalho, são as mais numerosas. Estão
dispersas desde o leste brasileiro até a bacia amazônica. São preferencialmente
Frutas Nativas da Região Centro-Oeste do Brasil Capítulo 2
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epífi tas apresentando folhas freqüentemente espinhosas, fl ores epígenas e frutos do
tipo baga coriácea, contendo sementes nuas e adaptadas à dispersão por pássaros
ou mamíferos. Mostram a tendência de fusão de algumas partes da fl or, como,
por exemplo, fusão entre carpelos, originando a formação de frutos indeiscentes e
fusão em diferentes níveis de sépalas, pétalas e fi lamentos. Esta tendência pode
ser observada, particularmente, nas espécies do gênero Ananas, na formação de
frutos sincárpicos devido à fusão dos ovários (Ferreira et al., 2005).
O abacaxi cultivado [Ananas comosus (L.) Merril] é a espécie mais importante
da família Bromeliaceae. No entanto, na mesma subfamília Bromelioideae, algumas
espécies de Aechmea e Bromelia produzem frutos comestíveis, como Aechmea
bracteata (Swartz) Grisebach, A. kuntzeana Mez, A. longifolia (Rudge) L.B. Smith
e M.A.Spencer, A. nudicaulis (L.) Grisebach, Bromelia antiacantha Bertoloni, B.
balansae Mez, B. chrysantha Jacquin, B. karatas L., B. hemisphaerica Lamarck,
B. nidus-puellae (André) André ex. Mez, B. pinguin L., B. plumieri (E. Morren) L.B.
Smith, e B. trianae Mez (RIOS e KHAN, 1998). Os mais comuns são localmente
consumidos e conhecidos através de nomes vulgares como cardo ou bananado-mato,
piñuelas (abacaxi pequeno), ou karatas, gravatá e croatá, derivados de
nomes indígenas e atribuídos às bromeliáceas terrestres. Outras bromeliáceas
são cultivadas como plantas ornamentais, para extração de fi bras ou usadas na
medicina tradicional (CORRÊA, 1952; PURSEGLOVE, 1972; REITZ, 1983; RIOS e
KHAN, 1998).
Atualmente a classifi cação taxonômica dos gêneros Ananas e Pseudananas,
está passando por modifi cações, baseada em observações morfológicas e estudos
com marcadores moleculares (LEAL, 1990; LEAL e COPPENS d’EECKENBRUGGE,
1998; DUVAL et al., 2005)
Inicialmente, o centro de origem do gênero Ananas, que inclui Ananas
comosus (L.) Merril, espécie à qual pertencem todas as cultivares de abacaxi de
interesse frutícola, foi defi nido como a região compreendida entre 15ºS e 30ºS de
latitude e 40ºW e 60ºW de longitude, área que engloba o Centro-Oeste e Sudeste
do Brasil e Nordeste do Paraguai (COLLINS, 1960). Posteriormente, Leal e Antoni
(1981) propõem nova área, na região localizada entre 10ºN e 10ºS de latitude e 55ºW
e 75ºW de longitude, justifi cando que a fl ora desta região é endêmica e contém o
maior número de espécies do gênero Ananas. Atualmente sabe-se que o centro de
diversidade do gênero Ananas é muito mais amplo, englobando diversas regiões
brasileiras e alguns países circunvizinhos, notadamente da região Amazônica
(FERREIRA et al., 2005).

HABITAT E DISTRIBUIÇÃO GEOGRÁFICA
Ananas ananassoides é a espécie do gênero com maior variabilidade
morfológica e ampla distribuição geográfi ca. Distribui-se por toda a América do Sul
tropical, ao Leste dos Andes. Ocorre da Colômbia à Guiana Francesa, de Norte a
Sul do Brasil, no Paraguai e Norte da Argentina. Vegeta em savanas (cerrados) e em
campinas amazônicas (LEME e MARIGO, 1993) ou em fl orestas pouco sombreadas.
No entanto, alguns genótipos têm sido observados em fl orestas tropicais densas, nas
Guianas. Adaptou-se aos solos pobres, arenosos e pedregosos, com a capacidade
de retenção de água limitada, onde formam populações de densidades variáveis.
Segundo Fávero et al. (2006), A. ananassoides tem comportamento cosmopolita, de
ocorrência na região Norte, Centro-Oeste e parte do Nordeste do Brasil.
ASPECTOS ECOLÓGICOS
O A. ananassoides é nativo principalmente nas condições de vegetação de
cerrado. As regiões de coleta de A. ananassoides têm como principais características
sua ocorrência em latossolos, argissolos ou neossolos, em depressões, planaltos
ou planícies, altitude entre 0 a 800m e temperatura média de 23 a 27˚C ( Fávero et
al. 2006).
RECURSOS GENÉTICOS
Variabilidade e erosão genética. O Brasil é um dos principais centros de
diversidade genética de Ananas e Pseudananas. Portanto, ocorre uma ampla
variabilidade genética desses dois gêneros nas condições brasileiras. O Ananas
ananassoides tem ocorrência generalizada em varias regiões do Brasil, assim como
em outros paises circunvizinhos, sendo, portanto, a espécie com maior diversidade
do gênero Ananas.
O Ananas ananassoides pode ser propagado de forma sexuada, através de
sementes ou de forma assexuada, através de mudas. Na natureza, a maior parte
das populações é monoclonal, porém algumas são policlonais e existem, também,
as populações de origem seminífera, apresentando grandes variações morfológicas
atribuídas principalmente à origem sexual (DUVAL et al., 1997).
Devido a sua adaptação a diferentes tipos de condições climáticas, o Ananas
ananassoides está amplamente distribuído na natureza, o que confere maior alento
Frutas Nativas da Região Centro-Oeste do Brasil Capítulo 2
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para a sua preservação. Não obstante, a erosão genética devido, principalmente, a
ação antrópica, pela expansão da fronteira agrícola, pela construção de barragens,
pela ampliação dos centros urbanos, dentre outros, tem reduzido populações
causando perda de material genético. Para minimizar os efeitos da erosão genética,
têm sido desenvolvidos projetos de coleta, conservação e uso de germoplasma de
A. ananassoides.
Conservação de germoplasma. A Embrapa Recursos Genéticos e
Biotecnologia e a Embrapa Mandioca e Fruticultura, desenvolvem há mais de
duas décadas, projetos de coleta, intercâmbio e conservação de germoplasma de
abacaxi, através dos quais foi possível montar um Banco Ativo de Germoplasma
(BAG), que conta atualmente com 734 acessos, sendo cerca de 15% (112 acessos)
de Ananas ananassoides (CABRAL et al.,1998; FERREIRA e CABRAL, 2002). O
material do BAG está parcialmente caracterizado e avaliado, principalmente para
características que visam o melhoramento do abacaxi para a produção do fruto
(SANTOS et al., 1999; SOUZA et al, 2000; QUEIROZ et al., 2001; QUEIROZ et al.,
2003; CABRAL et al., 2004; FERREIRA e CABRAL, 2003; DUVAL et al., 2005).
A coleta, a conservação, a caracterização e a avaliação de germoplasma de
abacaxi, incluindo Ananas ananassoides, podem indicar genótipos que apresentem
características para uso direto por parte dos produtores e/ou que tenham interesse
imediato ou potencial para a utilização em programas de melhoramento genético
(Ferreira e Cabral, 1998).
Os principais bancos de germoplasma de Ananas são: o da Embrapa
Mandioca e Fruticultura, em Cruz das Almas, BA; o do CIRAD (Centre de
Coopération Internationale em Recherche Agronomique pour le Développement), na
Martinica, e o do USDA (United States Department of Agriculture), no Havaí, EUA.
Outros bancos menores são mantidos em instituições públicas na Venezuela, Costa
do Marfi m, Malásia, Okinawa, Taiwan, Austrália, dentre outros países e também em
outras instituições brasileiro.

Banco de germoplasma de Ananas ananassoides (Baker) L.B. Smith.,
Embrapa Mandioca e Fruticultura, em Cruz das Almas, BA.
O primeiro banco de germoplasma de abacaxi foi constituído no Havaí para
sustentar o programa de melhoramento do “Pineapple Research Institute” daquele
estado americano, iniciando-se, a partir de 1914, a importação de acessos de
diversos países. Posteriormente, os melhoristas Baker e Collins (1939), conscientes
da variabilidade genética limitada dos materiais disponíveis, organizaram expedições
de coleta na América do Sul e reuniram representantes de várias espécies e
cultivares tradicionais (BAKER e COLLINS, 1939).
Em 1929 foi iniciada uma coleção de espécies e variedades de Ananas
no Instituto Agronômico do Estado de São Paulo (IAC), que na década de 30, foi
enriquecida com novas coletas e introduções. Em 1938 foram obtidos os primeiros
híbridos de ‘Branco x Rondon’, ‘Amarelo x Rondon’, ‘Viridis x Rondon’, dentre
outros, de folhas completamente inermes, característica conferida pela cultivar
Rondon. Naquela época, a coleção do IAC era composta por cerca de 20 acessos
(CAMARGO, 1939).
Em 1977 a EMBRAPA iniciou seu programa de melhoramento e conservação
de germoplasma de abacaxi e, deste então, foram incrementados intercâmbios com
bancos nacionais e internacionais. Também foram organizadas várias expedições
de coleta, que permitiram coletar mais de 400 acessos.
O CIRAD-FLHOR iniciou a formação de um banco de germoplasma de

abacaxi em 1940, na Guiné, composto por cultivares importadas. Esse banco foi
transferido inicialmente para Costa do Marfi m, em 1958, e posteriormente, em 1985,
uma duplicata do banco foi instalada na Martinica.
Ao longo do tempo, houve a conscientização por parte dos melhoristas para
a necessidade de se ampliar a diversidade genética para que se aumentasse a
efi ciência dos programas de melhoramento. Essa conscientização surgiu em vários
países. Surgiu também a necessidade do estabelecimento de parcerias no trabalho
de pesquisa, de coleta e de conservação dos recursos genéticos. Nas últimas
décadas, várias parcerias permitiram uma ampliação importante dos recursos
genéticos disponíveis.
Uma primeira parceria entre a Universidade Central de Venezuela e o
CIRAD-FLHOR, com a colaboração do IPGRI (International Plant Genetic Resources
Institute), propiciou a execução de quatro expedições de coleta na Venezuela,
resultando em uma centena de clones silvestres e cultivares tradicionais que foram
mantidos na Venezuela e na Martinica (LEAL et al. 1986).
Em 1989, a EMBRAPA iniciou uma parceria com o CIRAD-FLHOR, dentro
de um projeto fi nanciado pela Comunidade Européia. Seis expedições de coleta
foram organizadas: no Amapá (junho-julho/1992), Acre e Norte do Mato Grosso
(setembro-outubro/1992), Guiana Francesa (março-abril/1993), Amazonas (Rio
Negro em julho-agosto/1993, Rio Solimões em novembro-dezembro/1993) e Sul
e Sudeste do Brasil (maio-junho/1994). Foram coletados 413 acessos de espécies
silvestres e clones de cultivares tradicionais.
Desde 1997, uma nova parceria reúne a EMBRAPA, o FONAIAP (Venezuela),
o CIRAD-FLHOR e a Universidade do Algarve (Portugal) em um projeto comum
de avaliação de germoplasma de abacaxi, visando à obtenção a médio prazo de
variedades melhoradas, com apoio da União Européia. Este projeto teve como
objetivo em curto prazo a caracterização morfológica, agronômica e molecular
do material vegetal coletado recentemente, com destaque para a pesquisa que
visa à identifi cação de fontes de resistência às doenças e pragas importantes,
como a fusariose, a mancha negra, a broca Strymon basilides (Geyer) e vários
nematóides.
Além das parcerias estabelecidas e voltadas para a coleta de germoplasma,
outras formas de enriquecimento das coleções vêm sendo conduzidas, dentre elas,
o intercâmbio bilateral entre países tem proporcionado a ampliação da variabilidade
genética disponível para os diferentes programas de melhoramentos desenvolvidos
ao redor do mundo.
Graças a esse esforço que foi empreendido para alavancar os programas
de melhoramento de abacaxi, foi possível resgatar e conservar, mais de uma
centena de acessos de Ananas ananassoides, muitos dos quais foram coletados
em condições de cerrado. Todo esse material vem sendo mantido em campo, no
BAG da Embrapa Mandioca e Fruticultura Tropical, em Cruz das Almas – BA.

USOS E FORMA DE EXPLORAÇÃO
O fruto de Ananas ananassoides apresenta características muito rústicas,
evidenciando uma espécie que necessita ser domesticada e, através de seleção,
chegar-se a frutos mais próximos dos padrões de consumo. De maneira geral os
frutos são pequenos, muito fi brosos, com alto teor de açucares e também com alta
acidez, o que confere um sabor pouco agradável. Não obstante esses aspectos,
o fruto pode ser consumido ao natural, mas principalmente pode ser utilizado na
confecção de sucos, refrescos e sorvetes.
Alem disso, a espécie pode ser utilizada como planta produtora de fi bra,
como medicinal, industrial (produção de bromelina), ou como ornamental. Ananas
ananassoides tem um grande potencial no ramo do agro-negócio de planta
ornamental (Figura 3), pois suas fl ores e frutos possuem pedúnculo longo permitindo
o corte e o uso em arranjos, com durabilidade de até 40 dias. Atividades de pré-
melhoramento têm sido realizadas com essa espécie no intuito de buscar diversas
características de interesse em um só material, como pedúnculo longo e fi rme,
com a inserção fruto–pedúnculo resistente, infrutescência e coroa colorida, relação
coroa-fruto próximo a um, entre outras.

. Arranjo feito com infrutescências e folhas de Ananas ananassoides. Foto:
Marie France Duval.
A planta e o fruto são utilizados, via de regra, de forma extrativa, ou em
pequenos plantios em quintais, geralmente são usadas pelas populações locais e
raramente são comercializadas.

TECNOLOGIA E PROCESSAMENTO PÓS-COLHEITA
Como a produção é consumida logo após a colheita, não se dispõe de muita
informação sobre tecnologia e processamento pós-colheita. De maneira geral, os
produtos são confeccionados de forma artesanal e em condições caseiras, para
consumo familiar. O fruto, por exemplo, quando consumido in natura, é colhido
e imediatamente utilizado. Tendo em vista o aspecto peculiar de extrativismo ou
cultivo caseiro, o fruto é conservado na planta até o momento de sua utilização.
VALOR NUTRICIONAL
São poucos os estudos de composição nutricional de Ananas ananassoides.
Os dados de caracterização e avaliação de germoplasma têm mostrado que se
trata de uma planta com frutos com altos teores de açucares, com alta acidez e,
provavelmente, rica em vitamina C e em elementos minerais. Como o Ananas
ananassoides é geneticamente muito próximo do abacaxi cultivado (Ananas
comusus), pode-se supor que os dados da composição química de ambos possam
ter alguma semelhança. Neste particular, Medina et al. (1978) dão mais detalhes
da composição do fruto de abacaxi, confi rmando que é um fruto rico em vitaminas,
especialmente vitamina C e também muito rico em potássio.
INFORMAÇÕES SOBRE O CULTIVO
Esta espécie, principalmente por ser rústica, é de fácil cultivo, de ampla
adaptação em vários ambientes, de uso imediato e de grande potencial para a
exploração sustentada por pequenos agricultores da região do cerrado.
Pode ser propagada por sementes e por mudas, mas para propagação
comercial, recomenda-se a utilização da muda, mantendo o genótipo igual ao do
genitor. A propagação por sementes é utilizada nos trabalhos de melhoramento,
onde ocorre segregação. A. ananassoides, como a maioria das espécies de Ananas,
é considerada uma espécie alógama, e pode ser hibridizada com diversas outras
espécies em condições naturais ou artifi ciais. Sementes foram estudadas para a
conservação in vitro da espécie e seu uso no melhoramento (FIGUEIREDO et al,
2003).
Os tratos culturais, tais como, preparo e correção do solo, plantio, adubação,
tratamento fi tossanitário, fl oração artifi cial, colheita, etc., podem ser adaptados do
abacaxi (Ananas comusus), tendo em vista a similaridade que deve ocorrer em
ambas as espécies. Cunha et al. (1999) e Reinhardt et al. (2000) apresentam
detalhes do cultivo de abacaxi.

IMPORTÂNCIA SÓCIO-ECONÔMICA
A exploração de Ananas ananassoides para obtenção de fruto é ainda
incipiente, portanto, do ponto de vista econômico, é uma atividade pouco expressiva.
Já do ponto de vista social, esta atividade, quer seja extrativista quer seja através de
pequenos plantios, tem importância relevante, tendo em vista a sua peculiaridade
de fi xar o homem no campo e oferecer formas alternativas de emprego e renda,
alem de prover uma fonte alternativa de alimentação saudável.
Para a exploração de Ananas ananassoides como planta ornamental, podese
trabalhar com ótimas perspectivas, tendo em vista que o Produto Interno Bruto
do negócio envolvendo fl ores e plantas ornamentais, no Brasil, está estimado em
US$ 1,2 bilhões. Este mercado vem crescendo cerca de 20% ao ano no Brasil.
Atualmente, o cultivo e a comercialização de plantas ornamentais, principalmente as
tropicais vem se expandindo na região Nordeste, com destaque para os Estados de
Pernambuco, Ceará e Bahia, em função da sua beleza, exuberância e durabilidade
das suas fl ores. Dentre as plantas tropicais utilizadas como ornamentais, o abacaxi
vem se destacando. Atualmente, a espécie Ananas lucidus está sendo cultivada
no Estado do Ceará e suas infl orescências exportadas para a Europa; a espécie
Ananas bracteatus apresenta grande potencial pela beleza da infl orescência e da
coroa, ambos parentes silvestres de Ananas ananassoides. A produção de mudas
de qualidade foi possível graças ao desenvolvimento, realizado pela Embrapa, de
protocolos para a propagação in vitro tanto do Ananas lucidus como da variedade
porteanus (CORRÊA, 1952; CAVALCANTE et al., 1999). O Ananas ananassoides
objeto deste estudo, ainda pouco explorado para o agro-negócio ornamental,
apresenta um grande potencial, tendo em vista a sua enorme diversidade
genética.
O mercado de fl ores e plantas ornamentais representa um importante
papel social e na geração de empregos, pelo fato de ser a atividade agrícola que
pode proporcionar maior rentabilidade por área cultivada, retorno fi nanceiro mais
rápido e é praticada, essencialmente, em pequenas áreas de agricultura familiar.
Há espaço no mercado mundial para maior participação de fl ores não tradicionais,
o que favorece as espécies de clima tropical e, no país, encontram-se microrregiões
excepcionalmente favoráveis (LAMAS, 2002).
A produção de abacaxi ornamental é ainda muito pequena, mas o mercado
é crescente, principalmente o mercado exportador, dentre outros fatores, pela maior
longevidade das infl orescências, quando comparadas com as fl ores comumente
utilizadas, como as rosas.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
O abacaxi do cerrado, Ananas ananassoides, a única espécie do
gênero Ananas nativo nas condições de vegetação de cerrado, é uma espécie
semidomesticada, apresentando plantas muito rústicas, com produção de frutos
de qualidades muito inferiores ao abacaxi cultivado (Ananas comosus), sendo
consumida localmente na forma extrativista ou através de pequenos plantios. Existe
uma enorme variabilidade genética desta espécie dispersa na natureza, sendo que
uma amostra representativa dessa variabilidade tem sido resgatada e está sendo
conservada em bancos de germoplasma. Alem da produção de frutos, o Ananas
ananassoides pode ser considerado uma espécie com múltiplas aptidões, como
planta produtora de fi bras, planta industrial para produção de bromelina, e com
grande e imediata perspectiva de planta ornamental.

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